Na nossa rubrica entre profissionais, fomos até Granollers, perto de Barcelona, para conhecer uma criativa de percurso notável. Ficou curioso?
Apresentamos Núria Vila, designer gráfica e diretora de arte, especialista em identidade corporativa, editorial, packaging e comunicação visual. Uma profissional profundamente dedicada ao seu trabalho e ao ambiente.
Code: Olá Núria! Podes contar-nos um pouco sobre como começaste no design gráfico, para que os nossos leitores te conheçam melhor? Quando começou tudo?
Núria: Olá. Tudo começou quando vivi dois anos em Cuenca e, mesmo antes de regressar a Barcelona, fui para El Salvador fazer um documentário para uma associação que trabalhava com crianças com deficiência. Essa viagem mudou-me. Vou recordá-la para sempre e estou muito grata por essa experiência. Criei laços com muitas pessoas que me abriram as portas das suas casas e das suas vidas.
Quando lá cheguei, o ambiente era muito tenso. A guerra tinha terminado há pouco tempo, ouvi histórias duríssimas em que a realidade ultrapassava a ficção e eu estava ali com os meus problemas de “primeiro mundo”. Foi aí que tudo mudou.
Ao regressar a Barcelona, continuei a trabalhar para a Mateo&Co, onde estava muito satisfeita, e trabalhava remotamente porque a sede era em Madrid. Iniciei uma pós-graduação em direção de arte, que era muito interessante, mas eu precisava de digerir toda aquela experiência.
Comecei a sentir-me desconfortável com tudo. Com esta sociedade consumista, da qual eu fazia parte, ajudando marcas (em que muitas vezes nem acreditava) a vender cada vez mais. Por isso decidi sair do emprego para perceber o que queria realmente fazer e com o que me sentiria bem. Tornei-me freelancer e comecei a trabalhar para família e amigos.
Curiosamente, quase todos estavam ligados à agricultura (biológica), sustentabilidade… e foi aí que comecei a investigar como poderia criar design mais sustentável.

Code: Ficámos muito impressionados com o teu compromisso ambiental e a forma como os teus projetos refletem essa filosofia. Podes contar-nos mais sobre essa decisão?
Núria: Como expliquei, ao tornar-me independente, comecei a trabalhar para pessoas próximas e tudo estava ligado à sustentabilidade e à agricultura biológica.
Nos briefings, pediam sempre para transmitir uma imagem ecológica. Por isso, comecei a procurar formas de o fazer, não apenas recorrendo ao papel kraft, à cor verde ou a desenhar folhas, mas realmente tornando as peças que criava mais sustentáveis. Pesquisei materiais e formei-me nessa área.

Code: Gostámos muito do projeto L’Encant. Podes partilhar um pouco sobre o processo criativo?
Núria: O L’Encant era um bar/restaurante que misturava gastronomia catalã e japonesa. Procurei o elo comum. O nome tem um apóstrofo – que representa o pau. Para os japoneses, os pauzinhos para comer; para nós, o palito das tapas ou espetadas. A partir daí, desenvolvemos um sistema gráfico que combinava o pau com formas geométricas. Outro elemento comum era o leque. Por isso, o menu foi desenhado como um leque, podendo ser desmontado facilmente para atualizar as páginas com os preços. Como o bar tinha uma forte componente de esplanada, utilizei papel de pedra.

Code: E quanto aos materiais utilizados?
Núria: O papel de pedra tem certificação “cradle to cradle” (“do berço ao berço”), não utiliza celulose nem água. É feito a partir de pedras (de ruínas) e um aglomerante. Isso torna o material resistente, pode ser molhado, limpo e é difícil de rasgar. Muito melhor do que usar papel plastificado (que deixa de ser reciclável). As capas eram em madeira gravada.
Code: O resultado é espetacular. Gostarias de destacar algum aspeto em particular deste projeto?
Núria: É um projeto que realizei em 2011 e, ainda hoje, recebo emails de todo o mundo a perguntar por ele.
Code: Antes de terminarmos, três perguntas rápidas que fazemos sempre aos colegas da área.
Code: O que é melhor em ser designer?
Núria: É um trabalho pouco rotineiro. Cada projeto é diferente e obriga-te a procurar novas soluções.
Estamos sempre a aprender sobre temas distintos.
Code: E o pior?
Núria: O pior de ser freelancer é a instabilidade financeira. Fazemos tudo sozinhos, por isso agora ando a tentar gostar tanto de orçamentos e faturas como de desenhar, mas ainda é o que menos gosto! ahah
Code: Como vês o panorama do setor?
Núria: Acho que há excelentes designers e estúdios, mas também sinto que os clientes estão cada vez mais sensibilizados para confiar no designer.
A chave está na relação com o cliente. Ainda há muito caminho a percorrer, mas estamos no bom caminho.
No que toca à redução do impacto ambiental, ainda estamos muito atrasados. Precisamos que as empresas apostem verdadeiramente em minimizar o impacto que geram, e nós, designers, temos de ajudar. Falta formação e consciência. Vai havendo mais, mas o tempo está a esgotar-se, por isso temos de procurar e aplicar soluções já, porque só temos um planeta e estamos a destruí-lo.

Code: Terminamos esta conversa com a Núria desejando-lhe muito sucesso profissional e convidando todos os nossos leitores a conhecerem melhor o seu trabalho online.
www.nuriavila.net
www.instagram.com/nu_vila
Projeto L’Encant
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