Há pouco tempo, deparei-me na Aeon com um excerto do documentário Being in the World (2010), realizado por Tao Ruspoli. O vídeo recupera algumas ideias de Martin Heidegger sobre tecnologia que, curiosamente, parecem ainda mais pertinentes hoje do que quando foram formuladas há mais de meio século.
O que me chamou a atenção não foi uma crítica às máquinas, nem uma defesa nostálgica de um passado idealizado. Muito pelo contrário. A reflexão parte de uma ideia bem mais desconfortável: a tecnologia não altera apenas as ferramentas que usamos. Transforma também a forma como interpretamos o mundo.
No texto que acompanha o vídeo, a Aeon resume uma das preocupações centrais de Heidegger. O filósofo alertava para o risco de a tecnologia moderna nos levar a ver a realidade apenas em termos de eficiência, produtividade e potencial económico. Uma praia deixa de ser uma praia para se tornar numa oportunidade de investimento imobiliário. Uma floresta deixa de ser uma floresta para passar a ser vista como um conjunto de recursos disponíveis. Aos poucos, tudo à nossa volta começa a apresentar-se como algo que pode ser gerido, explorado ou otimizado.
Esta ideia é especialmente interessante porque não descreve apenas o século XX. Parece, aliás, descrever muito bem o nosso tempo.
Nas últimas décadas, criámos ferramentas extraordinárias. A Internet democratizou o acesso ao conhecimento, as plataformas digitais simplificaram tarefas que antes exigiam tempo e esforço, e agora a inteligência artificial promete automatizar atividades que até há pouco considerávamos exclusivamente humanas.
É difícil negar os benefícios de tudo isto. Estamos mais conectados, temos acesso a mais informação e conseguimos resolver problemas a uma velocidade que há poucos anos seria impensável.
No entanto, a questão que Heidegger levanta não está relacionada com as vantagens da tecnologia. Tem a ver com o que acontece quando a lógica que torna estas ferramentas úteis passa a ser também o critério com que avaliamos tudo o resto.
Enquanto designer, é impossível não reconhecer esta tendência. Grande parte do trabalho digital contemporâneo consiste precisamente em reduzir fricções, simplificar percursos, otimizar processos e melhorar resultados. São objetivos perfeitamente legítimos. Ninguém quer um site lento, uma interface confusa ou uma experiência desnecessariamente complicada.
Mas por vezes pergunto-me se esta mentalidade não estará a alastrar-se muito para além dos contextos onde realmente faz sentido.
Tornou-se comum falar de produtividade pessoal, otimização do tempo, gestão da atenção ou eficiência no dia a dia. Aplicações que organizam tarefas, algoritmos que decidem o que devemos ver, plataformas que prometem eliminar qualquer esforço supérfluo e ferramentas capazes de gerar conteúdos em segundos.
Tudo isto resulta porque responde a necessidades reais.
O problema surge quando começamos a assumir que tudo o que pode ser otimizado deve, obrigatoriamente, sê-lo.
Nem todas as atividades humanas têm o mesmo propósito.
Uma conversa com um amigo não é melhor por ser mais curta. Um passeio não precisa de ter um objetivo concreto. Uma refeição partilhada não é valiosa por ser eficiente. E a criatividade raramente surge seguindo um percurso perfeitamente otimizado.
Na verdade, muitas das experiências que mais nos marcam contêm precisamente aquilo que os sistemas eficientes procuram eliminar: incerteza, improviso, lentidão, erros e presença.
A eficiência é uma ferramenta extraordinária quando queremos produzir, transportar, organizar ou resolver problemas. Mas quando se torna o único critério para avaliar a realidade, arriscamo-nos a empobrecer a nossa relação com ela.
No documentário, músicos de jazz, chefs, carpinteiros e artistas falam sobre os seus ofícios. O curioso é que todos descrevem algo semelhante. Nenhum entende o seu trabalho como uma simples execução de procedimentos. O que valorizam não é apenas o resultado final, mas a relação que desenvolvem com o material, com o ambiente e com as pessoas envolvidas na experiência.
Um músico não responde apenas à partitura. Responde ao público, aos outros músicos, à sala e a tudo o que acontece durante a atuação. Um carpinteiro experiente não trabalha apenas para produzir um objeto funcional. Desenvolve também uma sensibilidade à madeira, ao tempo, à qualidade. Um cozinheiro não alimenta apenas outras pessoas. Cria uma experiência partilhada à volta da mesa.
Nada disto é particularmente eficiente.
E talvez seja precisamente por isso que é tão significativo.
A tecnologia moderna tende a oferecer-nos versões cada vez mais acessíveis de muitas experiências humanas. Podemos ouvir música sem ir a um concerto. Podemos aprender sem entrar numa sala de aula. Podemos comunicar sem partilhar o mesmo espaço físico. Podemos gerar imagens, textos ou vídeos em segundos.
Tudo isto tem um valor inegável.
A questão é se não estaremos a confundir acesso com experiência.
Ouvir uma gravação não é o mesmo que assistir a um concerto ao vivo. Ler sobre um lugar não equivale a visitá-lo. Gerar uma imagem não é o mesmo que desenvolver um olhar. Ter acesso a mais informação não significa, necessariamente, compreender melhor o mundo.
É uma diferença subtil, mas fundamental.
Porque uma parte cada vez maior da nossa vida decorre através de representações da realidade, enquanto muitas das experiências que dão profundidade à nossa existência continuam a exigir presença, atenção e participação direta.
E esta questão torna-se ainda mais relevante quando falamos de inteligência artificial.
Grande parte do debate atual gira em torno dos empregos que poderão desaparecer ou das novas oportunidades que poderão surgir. São questões importantes, mas talvez não sejam as únicas.
Devemos também perguntar-nos que competências deixamos de praticar quando delegamos certas tarefas. Que relação mantemos com o nosso trabalho quando uma parte crescente do processo se torna automática. O que acontece a capacidades como a observação, a paciência, a atenção ou o discernimento quando a velocidade se torna o valor principal.
A história mostra que cada nova tecnologia substitui algumas competências e potencia outras. Não se trata de resistir à mudança nem de idealizar formas de vida passadas.
A questão é bem mais simples.
Trata-se de perguntar o que vale a pena preservar.
Talvez o desafio não seja proteger-nos da tecnologia, mas evitar que a lógica da otimização se torne a única forma de ver o mundo.
Porque algumas das coisas que mais valorizamos continuam a funcionar segundo regras diferentes. A amizade, a arte, o ensino, a criatividade ou o sentido de comunidade não se fabricam sob encomenda. Também não podem ser acelerados indefinidamente sem perder algo essencial pelo caminho.
Por isso achei tão interessante encontrar estas ideias na Aeon. Não porque ofereçam respostas definitivas, mas porque ajudam a formular uma pergunta que talvez seja cada vez mais urgente.
Num tempo obcecado em fazer mais, mais depressa e com menos esforço, seremos ainda capazes de reconhecer aquilo cujo valor reside precisamente no facto de não poder ser otimizado?
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