Na nossa rubrica destaque de web design da semana, analisamos projetos digitais que não se destacam apenas pelo impacto visual, mas também mostram como uma boa experiência de utilizador pode transformar a nossa perceção do mundo. Hoje damos destaque a Flashlights, uma criação do Tubik Studio em colaboração com a Jailhouse Lawyers Initiative da NYU School of Law.
Flashlights é uma secção interativa integrada num site já existente, que conta a história e o impacto dos jailhouse lawyers: pessoas privadas de liberdade que, sem formação jurídica formal, aprenderam direito de forma autodidata e se tornaram defensores legais dentro das prisões. O desafio era enorme: transformar um conteúdo denso, histórico e jurídico numa experiência clara, acessível e emocionalmente envolvente.
O resultado é um exemplo notável do que uma agência de web design pode alcançar ao unir UI/UX, motion design, design gráfico e desenvolvimento sob uma visão narrativa comum. Para estúdios como o nosso, em Barcelona, especializados em web design, branding digital e storytelling interativo, Flashlights é uma referência incontornável.
Flashlights é da autoria do Tubik Studio, um estúdio internacional reconhecido pelo seu enfoque em produtos digitais com forte componente conceptual. O projeto reúne uma equipa multidisciplinar que mostra como o web design de excelência é sempre fruto de trabalho coletivo.
O facto de o estúdio dar visibilidade a estes créditos diz muito sobre a sua cultura: este não é apenas um “site bonito”, mas sim o resultado de uma colaboração coordenada entre design, conteúdo, tecnologia e gestão — algo essencial em projetos web complexos para instituições, ONG ou iniciativas culturais.
A Jailhouse Lawyers Initiative dispunha de uma quantidade massiva de informação: datas, casos, marcos jurídicos, biografias, citações, recursos académicos… Uma narrativa rica, mas difícil de consumir para o público em geral. O briefing para a Tubik foi claro: criar uma secção dentro do site existente que funcionasse como um percurso histórico interativo, sem sobrecarregar o utilizador nem comprometer o design global do site.
Havia ainda restrições técnicas: a secção teria de se integrar numa estrutura pré-existente em Webflow, respeitando a identidade visual base e, ao mesmo tempo, trazendo personalidade própria. A equipa teve também de gerir um grande volume de imagens e recursos, garantindo tempos de carregamento aceitáveis e compatibilidade com os principais browsers.
Em termos de estratégia digital, o desafio resume-se numa frase: transformar informação em experiência. E é precisamente aqui que Flashlights se destaca.
O universo visual de Flashlights inspira-se em cartazes vintage, colagens, recortes de imprensa, fotografias de arquivo e apontamentos manuscritos. Esta fusão cria uma estética simultaneamente documental e emotiva: não estamos perante um site corporativo tradicional, mas sim diante de um mural digital em constante movimento.
A paleta cromática assenta em dois tons principais destacados nos Awwwards: #F1EADA, um marfim quente que evoca papel envelhecido, e #DF4359, um vermelho intenso usado para títulos, detalhes e elementos de destaque. A combinação sugere, ao mesmo tempo, memória histórica e energia ativista.
A tipografia reforça este conceito: conjuga fontes de inspiração editorial com títulos marcantes que remetem para a imprensa e cartazes de protesto. O resultado é um sistema gráfico coeso, que foge do aspeto assético e se alinha com a causa social representada.
Para gerir a densidade do conteúdo, a Tubik recorre a um recurso clássico — e extremamente eficaz quando bem executado: uma linha do tempo interativa. Em vez de um texto longo e difícil de navegar, a história dos jailhouse lawyers é dividida em etapas e momentos-chave, permitindo ao utilizador explorar de forma sequencial ou saltar diretamente para os marcos que mais lhe interessam.
Cada bloco da linha do tempo combina texto curto, imagem, colagem e composição tipográfica. Isto cria pequenas “cápsulas” narrativas, fáceis de ler, rápidas de percorrer e visualmente distintas. A sensação é de progresso: o utilizador vai avançando, página a página, sem nunca perder o fio à meada.
Do ponto de vista de UX design, esta abordagem reduz a carga cognitiva de um tema complexo, respeita diferentes níveis de profundidade — leitura rápida ou exploração detalhada — e evita o scroll infinito e desestruturado tão comum em projetos de conteúdo.
Flashlights não seria o mesmo sem o trabalho de motion design liderado por Ladamyra Kuntysia. Cada transição, efeito de entrada e microanimação tem um propósito narrativo. Não há movimentos gratuitos: tudo serve o ritmo de leitura.
À medida que se avança na linha do tempo, os elementos surgem com animações suaves que evocam o universo do collage físico: peças que deslizam, molduras que se encaixam, fotografias sobrepostas. Isto reforça a sensação de folhear um arquivo vivo.
O scroll é usado como ferramenta de storytelling. Não serve apenas para “descer” na página: ativa mudanças de composição, destaca números, reposiciona mapas e revela citações. É um recurso cada vez mais presente em projetos premiados nos Awwwards e encaixa perfeitamente na tendência do scroll narrativo.
Apesar do resultado parecer leve, o projeto é tecnicamente exigente. O programador Oleksii Dubrov teve de integrar esta secção num site Webflow já existente, trabalhando com um grande volume de imagens otimizadas em WebP, camadas e blend modes para simular texturas, animações personalizadas e compatibilidade entre browsers, sem sacrificar a riqueza visual.
O equilíbrio entre impacto visual e desempenho é mais uma razão para Flashlights ter recebido o Awwwards Developer Award. É um lembrete de que o web design contemporâneo exige uma relação próxima entre designers e developers, sobretudo em experiências ricas em conteúdo.
Para além do visual, o sucesso do projeto assenta num tom editorial muito bem afinado. O conteúdo é rigoroso, com dados, datas e contexto histórico bem fundamentados; acessível, evitando jargão jurídico desnecessário; respeitador das pessoas retratadas e das suas vivências; e claramente comprometido, no sentido em que convida à reflexão e à tomada de posição.
O design gráfico de Maryna Solomennykova serve de ponte entre o conteúdo e o utilizador: cada elemento visual reforça a voz do texto e impede que o projeto se torne frio ou excessivamente académico. É um equilíbrio delicado, mas muito bem conseguido.

Flashlights conquistou diversos prémios internacionais que atestam a sua excelência: Awwwards Site of the Day, Awwwards Honorable Mention, Awwwards Developer Award, nomeação para Site of the Month nos Awwwards e nomeação nos Webby Awards. Não é por acaso: reúne tudo o que hoje se valoriza no web design de topo — ideia sólida, responsabilidade social, execução visual irrepreensível, experiência de utilizador cuidada e desempenho técnico de excelência.

Flashlights deixa várias lições que qualquer estúdio de web design ou instituição pode aplicar: conteúdos complexos tornam-se acessíveis quando bem estruturados e suportados por um sistema visual coerente; o design não deve suavizar o problema, mas sim ajudar-nos a encará-lo com mais contexto e empatia; a narrativa interativa é especialmente poderosa em projetos educativos, de memória histórica ou justiça social; e a integração técnica é tão importante quanto a estética.

Flashlights prova que o web design com propósito pode ser belo, emotivo e tecnicamente avançado. Não é apenas uma secção de um site institucional: é um pedaço de memória digital, um recurso pedagógico e uma ferramenta de ativismo.
Para quem trabalha em web design, branding e experiência digital, este projeto confirma que as melhores interfaces não são as que mais se impõem, mas sim as que iluminam histórias raramente contadas. E, nesse sentido, o trabalho do Tubik Studio com a Jailhouse Lawyers Initiative faz jus ao nome do projeto: verdadeiras lanternas acesas num sistema que prefere manter muitas realidades na sombra.
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