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22/05/2026

Porque é que alguns criativos deixam de evoluir

Há criativos que acreditam que a experiência acaba por substituir o feedback. Que chega um ponto em que o critério já está formado, as decisões surgem naturalmente e a evolução depende apenas de acumular mais projetos, mais anos e mais trabalho.

Mas a realidade costuma ser bem mais desconfortável.

Atul Gawande — cirurgião e escritor — partilhou uma ideia interessante ao falar de Roger Federer: mesmo sendo um dos melhores tenistas do mundo, continuava a trabalhar com treinador. Não por não saber jogar. Mas porque, a partir de certo nível, melhorar torna-se extremamente difícil.

E esta ideia tem tudo a ver com design, branding e criatividade. Muitos profissionais não deixam de evoluir por falta de talento. Deixam de evoluir porque passam demasiado tempo fechados na própria cabeça.

A experiência também cria pontos cegos

Nas áreas criativas, a experiência tem uma vantagem óbvia: acelera a tomada de decisões. Aprendemos padrões, desenvolvemos intuição e começamos a encontrar soluções quase automaticamente. Isso aumenta a rapidez, a confiança e a capacidade de resolver problemas.

Mas também traz um risco: deixamos de questionar muitas decisões porque sentimos que já dominamos o processo.

É aí que surgem os pontos cegos.

Raramente aparecem como grandes erros. Revelam-se em pequenos detalhes:
– estruturas repetidas,
– hierarquias visuais automáticas,
– recursos gráficos usados por hábito,
– decisões de UX assumidas como certas,
– formas de apresentar informação que deixamos de rever.

Na maioria das vezes, não é por falta de criatividade. É porque o cérebro procura poupar energia. E quanto mais dominamos algo, mais fácil é entrar em piloto automático.

O problema de conhecer demasiado bem o que desenhamos

Em UX isto acontece constantemente. O designer conhece de cor a interface que construiu:
– entende a lógica,
– sabe onde está cada elemento,
– conhece o percurso,
– recorda as decisões tomadas.

O utilizador não.

E é precisamente aqui que surge uma das maiores ironias do design digital: quanto mais tempo passamos num projeto, mais difícil é vê-lo com olhos de fora.

Muitas fricções não desaparecem porque a interface é clara. Desaparecem porque já aprendemos a navegar nela.

Quando produzir deixa de ser sinónimo de evoluir

Há estúdios e profissionais criativos que produzem trabalho durante anos sem realmente evoluir. Trabalham, entregam projetos e mantêm uma qualidade consistente, mas muitas vezes deixam de questionar como pensam, como decidem e como constroem soluções.

A experiência pode melhorar muito a execução. Mas não garante evolução.

Porque evoluir implica algo mais desconfortável:
– questionar hábitos,
– rever automatismos,
– aceitar observação externa,
– identificar padrões repetidos,
– admitir que ainda há coisas que não vemos.

E isso torna-se muito mais difícil quando sentimos que já temos critério.

O ego criativo raramente parece ego

Quando se fala em ego criativo, imaginamos logo arrogância evidente. Mas normalmente manifesta-se de forma muito mais subtil.

Surge quando justificamos decisões demasiado depressa. Quando defendemos uma solução antes de a analisar. Quando vemos o feedback como uma ameaça em vez de uma ferramenta de observação.

E isto acontece imenso na criatividade.

Porque o trabalho criativo é muito pessoal: as decisões visuais, conceptuais ou narrativas confundem-se facilmente com a identidade profissional. O problema é que, quando isso acontece, qualquer revisão começa a ser sentida como um ataque ao nosso próprio critério.

O feedback desconfortável costuma ser o mais valioso

O bom feedback raramente serve para confirmar o que já pensamos. O seu verdadeiro papel é ampliar a nossa perceção.

Às vezes, um simples comentário revela algo que não questionávamos há meses:
– uma interface demasiado carregada,
– uma navegação pouco intuitiva,
– uma direção visual repetitiva,
– excesso de informação,
– uma estrutura que obriga o utilizador a pensar demasiado.

E normalmente estes problemas não surgem por falta de capacidade. Surgem porque deixámos de olhar para certos detalhes com atenção.

Por isso, muitos dos melhores estúdios criativos trabalham continuamente com revisão interna, direção criativa partilhada e observação externa. Não por duvidarem do seu talento. Mas porque reconhecem os limites de trabalhar sempre a partir da mesma perspetiva.

Desenhar também é aprender a observar-se

No vídeo, Gawande explica como outro cirurgião identificou pequenos detalhes no seu trabalho que ele próprio não via.

Não eram grandes erros. Eram pequenos ajustes:
– postura,
– timing,
– coordenação,
– comunicação,
– atenção.

E talvez esta seja a parte mais interessante de toda a reflexão.

A evolução profissional raramente acontece em mudanças radicais. Normalmente surge em pequenos ajustes invisíveis que só detetamos quando alguém nos obriga a olhar para o nosso próprio trabalho de fora.

No design é exatamente igual.

Às vezes, um site não precisa de ser totalmente refeito. Precisa apenas de perceber melhor:
– onde o utilizador hesita,
– o que gera fricção,
– o que quebra a atenção,
– que informação pesa demasiado,
– ou que parte da experiência parece pensada mais para quem a criou do que para quem a utiliza.

A criatividade amadurece quando deixamos de proteger tanto o nosso critério

Talvez uma das diferenças mais claras entre repetir experiência e continuar a evoluir seja esta: manter a capacidade de nos questionarmos, mesmo quando achamos que já sabemos fazer bem.

Porque o verdadeiro risco na criatividade não é errar.

É deixar de rever a forma como pensamos.


Parte desta reflexão nasce de uma conversa de Atul Gawande sobre especialização, feedback e desenvolvimento profissional.

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